Parece que Música tem se tornado o assunto mais relevante ultimamente na IASD. Os assuntos mais discutidos na comunidade Jovens Adventistas no Orkut são sobre música.A Revista Adventista de Julho 2009 traz o artigo Louvor Congregacional do Pr. Otimar Gonçalves, líder de Jovens da Divisão Sul Americana.
A iniciativa de orientar a Igreja no que tange ao louvor congregacional sem dúvida é louvável. A música e o louvor são partes cruciais na adoração adventista e a IASD precisa continuar a crescer neste aspecto.
Gostaria de analisar algumas idéias e as possíveis implicações dos conceitos expressos pelo Pr. Otimar.
O artigo começa com a afirmação:
"É preciso primeiro aprender na Terra a louvar o Criador dos céus e da Terra para depois louvá-lo no Céu."
Aparentemente, um conceito teológico bonito, e até profundo.
Porém, esta afirmação tem implicações muito sérias na relação entre adoração e Salvação. Existem aqui overtons da teologia da "música como instrumento de salvação" propagada por Dario Pires de Araújo no seu livro Música, Adventismo e Eternidade e muitos outros. (Este livro tem tido bastante influência na música e adoração adventistas nos últimos 20 anos.)
Quais são as possíveis implicações da afirmação acima? Que o louvor tem peso para a salvação. Note que o problema não está no conceito de que devemos começar nosso louvor a Deus aqui na Terra e continuarmos no céu. Isso é um fato bíblico.
O problema surge quando se coloca o louvor "correto" (em que pese a subjetividade da palavra "correto") aqui na terra como condição ou necessidade ("é preciso") para que se possa louvar "no céu". Este aspecto de causalidade é bastante problemático.*
Qual então é a relação entre o louvor do "aqui, agora" e do "não ainda"? Em termos salvíficos, a adoração não tem nenhum peso. Posso ouvir alguns dizendo: "Isso é heresia!" "Afronta à cosmovisão adventista do Grande Conflito!!" Não necessariamente.
A doutrina adventista da justificação pela graça prega que somos aceitos perante Deus tão-só e exclusivamente pelo sacrifício perfeito de Jesus Cristo. Essa é a base para a nossa aceitação diante de Deus. Usar a adoração ou "boa música" para "adicionar" ou "auxiliar" neste processo é sim uma afronta ao sacrifício de Jesus em nosso lugar. É salvação pelas obras humanas, pura e simples.
Por isso, a adoração e o louvor congregacional deve ser considerado simplesmente como a resposta humana, incontida e vibrantemente reverente ao dom imerecido da salvação já alcançada em Jesus. Eles refletem o "estar salvo" e não o "para ser salvo".
A adoração e a música sacra, por mais importantes que sejam para a vida cristã, não devem ser elevadas a requisito de salvação por um desejo desmedido e, consequentemente, legalista, de que estas sejam "sacrifícios perfeitos" e de alguma forma, se tornem base na salvação.
Fazer nosso melhor para adorar a Deus com entendimento não deve ser confundido com oferecer nossa adoração para "completar" o sacrifício de Jesus.
A adoração e a música sacra, por mais importantes que sejam para a vida cristã, não devem ser elevadas a requisito de salvação por um desejo desmedido e, consequentemente, legalista, de que estas sejam "sacrifícios perfeitos" e de alguma forma, se tornem base na salvação.
Fazer nosso melhor para adorar a Deus com entendimento não deve ser confundido com oferecer nossa adoração para "completar" o sacrifício de Jesus.
A linha divisória é tênue, errar nisso pode ser fatal.
Gonçalves continua:
"Quando o tema é o ministério da música, há sempre muitas idéias e sugestões humanas, de acordo com a cultura de cada cantor ou músico. Mas nós queremos algo mais, ou seja: o "Assim diz o Senhor", baseado na Bíblia e no Espírito de Profecia."
Como discutimos no artigo abaixo, a cultura "humana" de cada músico e cantor desde os primórdios sempre influenciaram suas decisões musicais e de adoração. E isso não significa que foram contra o "Assim diz o Senhor" como o Pr. Otimar parece inferir aqui.
Na realidade, a Bíblia tem muito de cultura local ou pessoal no louvor.
Na realidade, a Bíblia tem muito de cultura local ou pessoal no louvor.
Lembre-se que Davi nos Salmos louvou a Deus de acordo com a cultura musical de sua época, em hebraico e com seus instrumentos hebraicos primitivos, harpa, saltério, címbalo, tamborins etc. A igreja primitiva manteve um estilo cultural judaico de adoração por muito tempo.
Já Ellen White louvava a Deus no contexto musical do século 19, em inglês e com hinos que soavam diametralmente diferentes dos hinos de Davi. Mas nem por isso foram contra o "Assim diz o Senhor" da realidade do Salmista.
Sobretudo, a adoração precisa ser relevante ao contexto cultural do adorador para que fale às suas necessidades imediatas mas o façam louvar a Deus como Eterno Provedor.
* * *
Os conselhos seguintes do Pr. Otimar sobre a preparação de quem lidera o louvor são na maioria razoáveis embora tenham caído em "terra molhada" (orar antes de cantar) ou a ênfase em externalidades como falar da roupa.
A única ressalva que eu faria é no item 4, onde ele cai em julgamento e más suspeitas.
Ele afirma:
"Alguns de nossos cantores se valem de um recurso chamado melisma. Trata-se de um fragmento melódico ou um grupo de notas baseadas numa sílaba. Trocando em miúdos, nada mais é do que um meio de atrair a atenção dos ouvintes para o cantor e não para o louvor. É um tipo de exibição de recursos vocais, dotes e extensão musical ou coisas do gênero. Para alguns especialistas, são "firulas" musicais vindas do mundo do rap, black, soul e blus americano em especial."
É inevitável a conclusão de que aqui o Pr. Otimar julga que todos os que cantam de uma certa maneira estão se exibindo e portanto, indo contra o "Assim diz o Senhor". Isso é uma generalização descabida e ofensiva. É o velho mal julgamento que precisa ser evitado. A palavra pejorativa "firula" também adiciona um tom ácido que continua a contribuir para a divisão dos campos na IASD na questão da música: tradicionalistas e progressistas.
Esse tipo de afirmação de cunho pessoal além de ser despropositada vinda de um pastor e estar na revista oficial da IASD no Brasil, tem o potencial de alimentar as fogueiras extremistas e fanáticas na IASD que viviam acesas algumas décadas atrás. Nem quero imaginar quantos anciãos bem intencionados vão se apegar a esta declaração para "cortar" cantores da igreja ou "mandar parar" solos que tenham essas "exibições".
Jesus disse: "Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgais, sereis julgados; e com a medida com que medis vos medirão a vós." (Mat 7: 1-2)
Eu pergunto:
Seria "OK" julgar quando temos em vista o zelo pela causa de Deus? Mesmo que esse zelo seja mal empregado pela falta de experiência ou conhecimento musical a Deus e estimulado fortemente por preferências pessoais?
Sobretudo, a adoração precisa ser relevante ao contexto cultural do adorador para que fale às suas necessidades imediatas mas o façam louvar a Deus como Eterno Provedor.
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Os conselhos seguintes do Pr. Otimar sobre a preparação de quem lidera o louvor são na maioria razoáveis embora tenham caído em "terra molhada" (orar antes de cantar) ou a ênfase em externalidades como falar da roupa.
A única ressalva que eu faria é no item 4, onde ele cai em julgamento e más suspeitas.
Ele afirma:
"Alguns de nossos cantores se valem de um recurso chamado melisma. Trata-se de um fragmento melódico ou um grupo de notas baseadas numa sílaba. Trocando em miúdos, nada mais é do que um meio de atrair a atenção dos ouvintes para o cantor e não para o louvor. É um tipo de exibição de recursos vocais, dotes e extensão musical ou coisas do gênero. Para alguns especialistas, são "firulas" musicais vindas do mundo do rap, black, soul e blus americano em especial."
É inevitável a conclusão de que aqui o Pr. Otimar julga que todos os que cantam de uma certa maneira estão se exibindo e portanto, indo contra o "Assim diz o Senhor". Isso é uma generalização descabida e ofensiva. É o velho mal julgamento que precisa ser evitado. A palavra pejorativa "firula" também adiciona um tom ácido que continua a contribuir para a divisão dos campos na IASD na questão da música: tradicionalistas e progressistas.
Esse tipo de afirmação de cunho pessoal além de ser despropositada vinda de um pastor e estar na revista oficial da IASD no Brasil, tem o potencial de alimentar as fogueiras extremistas e fanáticas na IASD que viviam acesas algumas décadas atrás. Nem quero imaginar quantos anciãos bem intencionados vão se apegar a esta declaração para "cortar" cantores da igreja ou "mandar parar" solos que tenham essas "exibições".
Jesus disse: "Não julgueis, para que não sejais julgados. Porque com o juízo com que julgais, sereis julgados; e com a medida com que medis vos medirão a vós." (Mat 7: 1-2)
Eu pergunto:
Seria "OK" julgar quando temos em vista o zelo pela causa de Deus? Mesmo que esse zelo seja mal empregado pela falta de experiência ou conhecimento musical a Deus e estimulado fortemente por preferências pessoais?
É seguro dizer: "Se eu não gosto, Deus não gosta também?"
E como julgaríamos quem é "especialista" em música quando se trata de "melismas"? Quem concorda com minhas opiniões pessoais?
Händel, o compositor do Aleluia universalmente conhecido, era especialista? Eu pergunto porque sua cantata que conta a história do Messias tem melismas do começo ao fim. Mas ninguém se atreveria a cometer o sacrilégio de dizer que estes foram colocados ali para "exibicionismo" dos sopranos ou tenores. A arte musical sacra ao enaltecer a palavra de Deus é o que se sobresai na cantata do Messias e Seu nome é exaltado.
Por que repentinamente esta arte sacra se tornou "exibicionismo"?
E por que não é exibicionismo apresentar uma música sacra erudita alemã ou francesa ao órgão de tubos no sábado de manhã? Ou uma música que exija técnica instrumental pela orquestra do IAE? Ou pelo Coral ACASP ou o Carlos Gomes?
Veja que na passagem citada pelo Pr. Otimar, Ellen White condenou a exibição do talento musical de pessoas "não consagradas". É seguro concluir, portanto, que ela não condenou aqui a música sacra que expressa o talento pessoal e maestria técnica quando unidas à consagração pessoal. O problema reside justamente em querer qualificar aspectos intangíveis da experiência espiritual de cada um.
Não caiamos no erro de colocar juízo de valor nas intenções íntimas e espiritualidade dos músicos adventistas. Isso não é de Deus.
_____
Infelizmente creio que o artigo acaba causando mais problemas do que resolve.
Isso porque abordar o canto congregacional de uma perspectiva afunilada, apressada e baseada fortemente em preferências pessoais resulta em mal entendidos, como a confusão sobre a parte que a adoração deve exercer na experiência cristã de santificação, e em mais divisões e ostracismo de jovens Adventistas talentosos e sinceros que querem oferecer seu louvar a Deus, seja este com melisma ou não.
E como julgaríamos quem é "especialista" em música quando se trata de "melismas"? Quem concorda com minhas opiniões pessoais?
Händel, o compositor do Aleluia universalmente conhecido, era especialista? Eu pergunto porque sua cantata que conta a história do Messias tem melismas do começo ao fim. Mas ninguém se atreveria a cometer o sacrilégio de dizer que estes foram colocados ali para "exibicionismo" dos sopranos ou tenores. A arte musical sacra ao enaltecer a palavra de Deus é o que se sobresai na cantata do Messias e Seu nome é exaltado.
Por que repentinamente esta arte sacra se tornou "exibicionismo"?
E por que não é exibicionismo apresentar uma música sacra erudita alemã ou francesa ao órgão de tubos no sábado de manhã? Ou uma música que exija técnica instrumental pela orquestra do IAE? Ou pelo Coral ACASP ou o Carlos Gomes?
Veja que na passagem citada pelo Pr. Otimar, Ellen White condenou a exibição do talento musical de pessoas "não consagradas". É seguro concluir, portanto, que ela não condenou aqui a música sacra que expressa o talento pessoal e maestria técnica quando unidas à consagração pessoal. O problema reside justamente em querer qualificar aspectos intangíveis da experiência espiritual de cada um.
Não caiamos no erro de colocar juízo de valor nas intenções íntimas e espiritualidade dos músicos adventistas. Isso não é de Deus.
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Infelizmente creio que o artigo acaba causando mais problemas do que resolve.
Isso porque abordar o canto congregacional de uma perspectiva afunilada, apressada e baseada fortemente em preferências pessoais resulta em mal entendidos, como a confusão sobre a parte que a adoração deve exercer na experiência cristã de santificação, e em mais divisões e ostracismo de jovens Adventistas talentosos e sinceros que querem oferecer seu louvar a Deus, seja este com melisma ou não.
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*Se levarmos até as últimas consequências esse conceito, precisamos parar de construir edifícios de Igrejas pois no céu não há Templo: "Nela não vi santuário, porque o seu santuário é o Senhor Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro." (Apocalipse 21:22). Esse verso também apresenta problemas para aqueles que pretendem criar um paralelo entre a adoração no Templo terrestre com a da Igreja como sendo requisito para a adoração perfeita. Como reconciliar isto com o fato de que no céu e na Nova Terra, que são o alvo da comunidade cristã, não há Templo? Se o Templo onde Jesus ministra é modelo, qual a relevância da adoração naquele se ele não estará lá quando os salvos estiverem ali?





